segunda-feira, 9 de maio de 2011

O QUE SE QUIS DIZER COM ISTO?

O QUE SE QUIS DIZER COM ISTO?

Abre, enfim, o caderno. Vê a folha em branco. As linhas simétricas, repetidas, certas, infalíveis. Uma seqüência evidente e vazia. A folha está em branco, as linhas nada têm escrito. Há apenas, um enorme vazio na folha em branco. Folheia, então, com mãos nervosas, o resto do caderno. E encontra, em todas as suas folhas, as linhas simétricas, repetidas, certas, infalíveis. A mesma seqüência evidente e vazia, das folhas em branco. Um enorme vazio. Um enorme vazio que ele sabe, que ele sente que é chegado o momento de preencher. Não é justo que tudo se acabe assim, tão branco, tão cheio de linhas, linhas simétricas, linhas sempre repetidas, em folhas tão vazias. É preciso escrever. Encher aquelas folhas tão vazias. Preencher o vazio. Não deixar as folhas em branco. Mas o que, meu Deus, o que escrever afinal? Como encher, enfim, aquelas linhas todas, simétricas, repetidas, certas, infalíveis? Como preencher aquelas folhas todas em branco? Havia tanto o que dizer e, ao mesmo tempo, parecia-lhe inteiramente desnecessário dizer alguma coisa. De repente, parecia-lhe que o mais certo seria mesmo deixar aquelas folhas todas em branco. Por que preenchê-las afinal? Por que manchar a simetria, a seqüência, a infalibilidade daquelas linhas todas, que, de tão certas, não precisavam de letras, de palavras, de frases, de desculpas, enfim, para que se atingisse um fim obrigatório e normal? As folhas em branco seriam passadas, uma a uma, as linhas continuariam simétricas, repetidas, certas, infalíveis, até a última folha em branco. Até a última linha vazia. Então o caderno teria acabado e o vazio seria claro e evidente. Mas parecia-lhe covarde agir assim. Não deixaria resposta alguma. Não ficaria qualquer explicação. E era egoísta e quase brutal, até mesmo injusto, legar aos outros o mesmo vazio que recebera. Pensou em Deus, então. Aquele Deus que aprendera a respeitar, desde a infância, aquele Deus por quem chamara a vida inteira, e que estava certo ficara alheio às suas súplicas. Mas, ainda assim, diante daquelas folhas em branco, que ele sentia necessário preencher com alguma palavra, com qualquer mensagem, para impedir que o vazio persistisse, que o nada o acompanhasse para sempre, ainda assim, mesmo que aquele Deus, por quem tanto clamara, jamais lhe tivesse atendido as súplicas, ainda assim, resolveu recorrer a ele naquele instante, naquele momento de sua vida, tão mais vazio do que qualquer outro.

Dr. Durval Luz.
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E-mail: drdurval.luz@hotmail.com

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